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Ana Afonso

Ana Afonso

Fotógrafa ANA.WeddingPhotography

Quanto valem as vossas memórias?

Tenho tentado encontrar uma resposta para esta pergunta e acredito que seja difícil chegar a um consenso. Mas deixo-vos aqui a questão para irem pensando na resposta enquanto lêem este artigo: quanto valem as vossas memórias?

Dou valor a esta questão e à medida que vou ficando com mais idade, a importância aumenta! Acredito que ter crescido com um pai aspirante a fotógrafo me faz pensar nesta questão com “olhos de ver”. Para mim fotografia significa memória, voltar atrás no tempo. Através da fotografia consigo recuar aos dias em que tinha varicela, aos dias em que íamos a casa dos avós, aos dias de piscina com brincos autocolantes.

Consigo regressar ao Jardim Zoológico, à avó Carolina e à avó Aduzinda. Também regresso à horta do avô António e à caça ao tesouro dentro de um carrinho de mão. Regresso ao casamento dos meus pais mesmo não estando lá, regresso ao nascimento da minha irmã e aos tempos em que ela desenhava rabiscos.

Estas são as minhas memórias, as minhas experiências e a minha vida de garota contadas em imagens. Tenho estas memórias impressas dentro de um caixa mas confesso que existe um grande vazio na minha vida, que é contada por estas fotografias, ou até mesmo pela falta delas.

Nos meus últimos 15 anos (e nos últimos 15 da minha irmã, vendo bem…) o telemóvel é a estrela das fotografias. Foi com ele que registei grande parte da minha permanência na falculdade, das praxes, da sapatada, da minha vida de adolescente. Mas sorte a minha (!!) eu ter uma máquina fotográfica de 2007 a 2013. Actualmente consigo ver 70% da minha vida académica com qualidade. Muitas fotografias estão em formato digital mas, vai na volta, lá estou eu embrulhada nelas e a fazer uma selecção para imprimir.

Mas (como toda a gente) também tenho muitas fotografias tiradas com o telemóvel. Ando com uma vontade enorme de actualizar a minha conta de Instagram pessoal. Tenho consciência que ainda não o fiz porque ainda não tive tempo de fazer o download de tooooooodas as fotografias que tenho nessa rede social. Foi precisamente no Instagram que tomei conta que tenho a maior GAP! da minha (nossa) existência. Em 2012 adoptámos a Shaka; em 2014 a Caju: 90% das fotografias foram com o telemóvel. Sinto sinceramente que perdi grande parte do crescimento “das minhas filhas”.

O telemóvel deu-nos o poder de fotografar na hora e retirou-nos o vínculo emocional. Fotografar com o telemóvel é banal, é fácil. Não há valor sentimental da história, do momento, do quão fugaz é o tempo.Damos por nós a armazenamos fotografias num dispositivo móvel e pronto. O valor (emocional) só surge quando a cloud ou o telemóvel têm um pequeno AVC.

Falando do telemóvel, a sociedade é invadida por novas máquinas todos os meses. Basta dar um pontapé num pedra da calçada e lá está mais uma nova tecnologia. Mas será que é suficiente comprar um telemóvel com uma câmara com qualidade em vez de contratar um profissional?

A questão surge porque eu própria sou apanhada na curva. Fui abordada por algumas mães que dizem que têm “pena de não ter feito uma sessão quando estava grávida”. A questão surge como um arrependimento, pela opção de não passarem pelo mesmo estado de graça. E acrescentam: “as fotografias que tenho tirei com o telemóvel”.

Na rubrica que lançei na quarentena Rebentá Bolha, a minha Joana Tadeu confessou que teria apostado na contratação de fotógrafos profissionais, mesmo sendo um casamento low cost. Quantos de vós já não se questionaram sobre esta questão? Eu já, várias vezes, e cada vez mais.

Sinto que esta questão, do valor emocional e do papel do fotógrafo na vida social, é um assunto que dá pano para mangas. Por isso pergunto-vos: quanto valem as vossas memórias?

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